Mais um pouco de “A Ilha”

“Durante dias a fio, Morten procurou Freyja pela Ilha, mas sem qualquer sucesso. Ao mínimo ruído, corria para dentro da cabana, na esperança que fosse ela. Mas voltava sempre cabisbaixo, desiludido por ter encontrado a casa vazia, mais uma vez.
Pela primeira vez na vida, queria estar próximo de alguém. Não conseguia deixar de pensar no sorriso dela, nos olhos brIlhantes, naquelas asinhas que se agitavam com a maior das suavidades.
Quando ela sorria, Morten tinha a sensação que o fazia apenas para ele e, de repente, tudo o que fora feio na sua vida deixara de existir.”

“Queria aquela mulher ao seu lado para o resto dos seus dias e apesar de ter pesado todos os prós e todos os contra, só conseguia ver vantagens.
Nunca se imaginara a partIlhar a sua vida com uma mulher. Aliás, nunca se imaginara a partIlhar a sua vida com ninguém, daí que se tivesse mudado para a Ilha. Quando pensara pela primeira vez em Freyja como uma companheira, a ideia de viver a seu lado fora quase destruída pela sua necessidade de solidão.
Afinal, fugira de tudo e de todos e estava só a começar a gostar de viver sozinho, em paz.
Na verdade, sempre vivera sozinho e bastava-lhe a ideia de alguém passar na mesma rua onde morava para se sentir sufocado.
A quietude e solidão que gozava desde que estava na Ilha eram tudo o que Morten sempre desejara. Mas, de repente, surgira aquela mulher a transformar tudo.
Mas, mais que tudo, queria ficar junto dela, o que, possivelmente, significaria também ter que conviver com o povo dela, viver no mundo dela.
A ideia de voltar a conviver com diversas pessoas, de recomeçar a sua vida noutro lugar, mesmo sendo um mundo tão especial como o de Freyja, tinha-o assustado. Mas depressa se recuperara.”

Aqui ficam dois excertos do início de “A Ilha”.

A descrição da personagem principal será postada em breve.

“Que se lixasse o barqueiro, o mar e tudo o mais. Lançou-se à água e fez sinal ao homem para lhe atirar o baú, o que ele fez, com tal violência que este praticamente se afundou. Morten teve que mergulhar para o agarrar, trazendo-o à superfície com alguma dificuldade.
O barqueiro remava já na direcção oposta à Ilha, o que deixou Morten aliviado pelo seu afastamento, mas um pouco inseguro. Afinal, e apesar de estúpida, era a única companhia que tinha e, muito provavelmente, o último ser humano que iria ver durante muito tempo.
Respirou fundo e começou a nadar, usando apenas um braço, enquanto segurava o baú com o outro.
Algum tempo, e muitas braçadas depois, Morten chegou, por fim, à praia, completamente exausto. Pousou o baú num local que lhe pareceu seguro, enterrando-o um pouco no misto de areia e terra que formava o chão.
Sacudiu o cabelo o mais vigorosamente que o cansaço lho permitia, enxotando para longe terra e pedaços de algas.”

“Havia séculos que a vida decorria calmamente, sem sobressaltos, graças aos esforços e ao sangue derramado pelos seus antepassados para garantir que ninguém tomaria conta da Ilha.
Essa calma, sempre apreciada pelo rei, ganhara ainda mais importância depois da sua odisseia. Ao contrário dos seus antepassados, que haviam nascido, crescido e morrido sem nunca terem saído da Ilha, este rei, no começo da sua juventude, decidira que era melhor para a sua formação que esta fosse enriquecida com novas experiências.
O seu pai, então rei, concordara, apesar de recear não voltar a ver o seu adorado filho. Acreditava no amor do jovem príncipe pela Ilha e pelo povo, e também que tudo isso seria fortalecido pela distância. Como realmente fora. Mas não conseguia deixar de temer que o mundo dos humanos o fizesse esquecer tudo aquilo.
Sabia que não teria muito mais tempo de vida, mas não deixara transparecer o seu medo de não tornar a ver o filho.
O jovem príncipe partiu sozinho, ficando fora da Ilha durante anos a fio.”