“Os Últimos a Sair”

“Os Últimos a Sair”

in “Pequenas Histórias para Entreter”

“- Eu vou mandar sair algumas pessoas. Quero que as deixem sair em paz. Elas não têm nada a ver com isto.

– Claro. Vão sair dentro de quanto tempo? – perguntou Correia enquanto fazia sinal a alguns agentes para que se pusessem a postos. António parecia estar a dizer a verdade, mas tinha que jogar pelo seguro.

– António?

– Quem é esse homem que você diz que entende perfeitamente o que se está a passar comigo?

– É um homem como você, que também já cometeu o erro de querer fazer justiça pelas próprias mãos.

– Eu não estou a fazer justiça pelas próprias mãos. Estou, quanto muito, a vingar-me.

– E a assinar a sua própria sentença. Acha que vale a pena passar os próximos anos da sua vida na cadeia?

– Qualquer coisa é melhor do que isto. – António desligou antes que Correia tivesse tempo de dizer o que quer que fosse.

– Explica-me. – pediu Correia a João depois de ter instruído os seus agentes para a possível libertação de alguns das pessoas que António mantinha dentro do edifício.

– Explico-te o quê?

– Como é que passar anos na cadeia pode ser melhor do que ter uma vida normal, um dia-a-dia, um trabalho, uma casa…”

"Pequenas Histórias para Entreter"

“- Deve ser o Correia… Talvez a tua mulher já tenha chegado. A polícia estava a tentar encontrá-la. – António largou a maçaneta.

– A minha mulher e eu estamos separados. E tenho a certeza que ela entende o que eu estou a fazer.

– É insuportável, não é? Todo o sofrimento que essas pessoas nos fizeram passar, as humilhações, a nossa incapacidade de saber como reagir àquelas atitudes, agora de simpatia e daqui a nada de repulsão… O sermos tratados como insectos que têm que lhes agradecer por não nos esmagarem…

– Os vómitos que se sentem a caminho do trabalho, o medo em que vivemos de não sabermos como será o minuto seguinte…

É, o terror que nos assalta nas noites de domingo para segunda, como se não soubéssemos se acabaremos aquele dia a voltar para casa ou numa ambulância a caminho da Casinha Amarela… – António encostou-se à porta e deixou-se escorregar. Estava a reviver tudo de novo.”

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