“Dívida de Honra”

“Dívida de Honra”

"Dívida de Honra"

“- Talvez o senhor nos possa explicar melhor… Eu não entendo muito bem estas coisas que vêm no jornais…

E a carta do meu primo também não explica nada. Ele não sabe escrever muito bem… – o homem estendeu a carta a Renato, que cada vez percebia menos o que se estava a passar.

Olhou para Pedro, que mexeu o braço, agitando o jornal e a carta para que Renato lhes pegasse. Agarrou nos dois e, segurando a carta entre dois dedos, sacudiu o jornal. Percorreu a primeira página com os olhos, apressadamente, procurando algo que se referisse à sua vida na cidade, mas não encontrou nada. Apenas uma fotografia enorme, a ocupar quase a totalidade da página, de um ajuntamento de gente, aparentemente feliz, de braços no ar e sorrisos de orelha a orelha. No topo da imagem, podia ler-se a palavra Revolução.

Renato sentiu-se como se tivesse levado um encontrão e teve que inspirar profundamente para que a sua respiração voltasse ao normal.

Levantando os olhos do jornal, contemplou os seus vizinhos. Não sabia o que dizer àquela gente.

Afinal, para os da cidade, a Revolução era algo há muito desejado, mas para quem viva tão isolado, tanto podia não significar nada como podia ser o fim da sua existência tranquila.

Rapidamente, leu a carta do primo de Pedro, que vivia numa aldeia a demasiados quilómetros dali para ser chamada de vizinha, apesar de ser a mais próxima. Pouco ou nada dizia. Tal como os seus vizinhos, também aqueles aldeãos estavam mais assustados do que entusiasmados.

Afinal, havia anos que viviam afastados da realidade. A força desmesurada do regime quase que não chegava ali, a não ser pelo facto de nunca se ter incomodado em levar até lá a electricidade, o gás ou os telefones. De certa forma, era a maneira do regime manter aquelas pessoas longe de qualquer possibilidade de desenvolvimento e de, consequentemente, quererem mais para as suas vidas. Apesar de déspotas, aqueles que ocupavam o poder não eram idiotas e sabiam perfeitamente que o desenvolvimento nas cidades tornara os cidadãos mais curiosos e ambiciosos e não queriam correr o risco de deixar que isso se multiplicasse pelas centenas de aldeias remotas que se espalhavam por todo o País.

Mas para os vizinhos de Renato, a Revolução poderia significar uma transição radical nas suas vidas e isso assustava-os.

Renato voltou a olhar para o jornal. A Revolução tivera lugar há cerca de dois meses atrás.”

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