“Dívida de Honra”

“Dívida de  Honra”

por Luz de Lisboa

disponível em http://www.bubok.pt

“Depois de muitas voltas na cama, resolveu que era melhor levantar-se.

Tal como todos os dias, não havia nada para fazer, mas sempre era melhor não fazer nada estando a pé do que deitado.

Enquanto se vestia, Renato apercebeu-se de um burburinho na rua. Aproximou-se da janela e viu os seus vizinhos reunidos, discutindo.

Renato tentou perceber o que diziam mas apenas apanhava uma palavra aqui e ali, sem qualquer sentido.

De repente, ouviu alguém falar no Presidente, o que ia o Presidente fazer. Embora não tivesse percebido a resposta, a reacção de uma das mulheres deixou-o perceber que se tratava de algo de grave. Enquanto observava a mulher de mãos na cabeça, Renato enfiou a camisola e vestiu as calças e o casaco à pressa, saindo para a rua.

– Bom dia! Então, a que é que se deve esta agitação toda? – os vizinhos olharam-no, mas desta vez não o fizeram com desconfiança, mas sim com medo, o que deixou Renato assustado. Era a primeira que eles mostravam medo.”

“Dívida de Honra”

“Renato sentia-se impaciente, como se estivesse a adivinhar um acontecimento, uma mudança naquela aparentemente eterna tranquilidade em que vivia.

A verdade era que a Revolução continuava a atormentá-lo, apesar de saber que não poderia alterar muita coisa na sua vida. Talvez tivesse que sair dali e procurar outro local isolado para viver, mas continuaria a ter que fugir. Provavelmente, teria que fugir ainda mais, para mais longe, talvez até para fora do País, uma ideia que nunca lhe passara pela cabeça, nem nos piores momentos.

Mas havia outra coisa que o atormentava ainda mais: a aliança.

Aquele pequeno aro de outro que enfeitara o seu dedo durante tantos anos. Na realidade, quando olhava para o seu dedo anelar esquerdo, continuava a ver a aliança, como se ela ainda lá estivesse, e lidara bem com essa fantasia. Mas ver que ela realmente ainda existia, mas fora do seu dedo, era demais para Renato. Atrás daquela aliança vinham muitas recordações, todas elas boas demais para não serem dolorosas. E por mais que fizesse, nada conseguia tirá-las da sua cabeça.

Renato não saiu de casa durante alguns dias, até um dos vizinhos lhe bater à porta, perguntando se estava tudo bem. Da janela respondeu que sim, o que pareceu suficiente para convencer o homem, que se foi embora.

Renato percebeu que não podia continuar fechado em casa, embora soubesse que sair também não o ajudaria muito. Naquele momento, poucas, se não mesmo nenhumas, ajudas seriam capazes de lhe alterar o estado de espírito. Mas também sabia que não poderia fazer nada para mudar a sua vida, portanto, o melhor era regressar àquela que fora a sua realidade nos últimos anos.

Resolveu dar um passeio, ir até ao lago, inspirar profundamente o ar fresco e com um leve cheiro a mar. Talvez o ajudasse a libertar-se daquelas memórias malditas.

Tentando mostrar-se completamente indiferente aos olhares dos vizinhos, que se interrogavam sobre o porquê de ter permanecido escondido todos aqueles dias, Renato atravessou por entre as casas e dirigiu-se para o lago.

Renato caminho cabisbaixo até à margem, onde pegou numas pequenas pedras e as atirou para a água. Contudo, as pedras bateram numa superfície dura, rolando até esgotarem a força do impulso e pararem. O gelo já cobrira o lago.”

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